domingo, fevereiro 16, 2014

fui patrão na getúlio; tive um quarto beatnik; conheci músicas obscuras dos beatles; dei funcionalidades à kopenhagen; fiz micagem na rua de barriga de fora; fiz caretas nas fotos do elevador; escrevi (e cumpri) wishlists; cruzei as estradas do estado com pressa e euforia; mudei a predileção do sabor de pizza; chorei; fiz chorar; ri e fiz rir mais, depois; conheci a palmirinha; li as crônicas da camila, depois do café; entornei shots de tequila; comprei omeprasol; fui à estátua da liberdade; tirei foto de pombas na vitória régia; aguardei os caras das casas bahia; sonhei todos os cômodos; ouvi enlevado todas as histórias de família; senti carinho nos cabelos em cima da nuca; desmascarei idades; encarnei oficial de menores; liberei ao reconhecer o malentendido; fiz pezinhos no box; vi a lua nas nações; vi sunset nas nações; vi o sol nascer nas nações; errei todas as entradas das nações; "vc deseja trocar um michael kors por um chilli beans? Siiiiiiiiiiiiiiiiiiim"; discuti anarquismo até desesperar; fiz todas as cagadas; pedi todas as desculpas; nomeei lojas simpáticas; fugi do shopping pra não ser descoberto; fiz tantas coisas mais e todas válidas e todas inesquecíveis, queria te dizer, e uso isso aqui, embora disso não goste de fazer, pra te dizer que é óbvio que estou feliz por vc, que estarei sempre aqui, de alguma forma, e que vc estará sempre aqui, te levo comigo até quando não souber mais quem eu sou. Se eu saio de cena, é pra te ver ainda mais feliz, a felicidade plena que vc merece, vc que tanto dela me deu. Era só isso que eu queria dizer aquele dia, um beijo do seu tamanhão, moça linda.

terça-feira, fevereiro 11, 2014

Sério mesmo que fez ano e dia? Não espere evolução. Esqueminha é o mesmo, música próxima e textinho mequetrefe-umbelical. O que a sua alma quer, o que o seu bicho quer, pergunta-me o hebdomadário aladim da vila madalena. Relaxa que a vida responde. Então tá, então. Shuffle de cérebro eletrônico, na pós-semana extrema de sensações. E quando digo extrema, minha filha, estou te sendo extremamente preciso, tá ouvindo bem?
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e amanheça de cabeça dentro dela...
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gosto da palavra píldoras. mas tem que ser assim, no plural.
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A câmera desliza e engole ar acompanhando as ondulações das telhas velhas e seus poros pretos, breve vertigem pelos movimentos e assim vai num, em dois, em todos os telhados do bairro média baixa da grande são paulo que separam esse cômodo daquela casa lá da ponta, onde uma Monica qualquer, vinte e cinco anos depois penteia o cabelo, antes do morro verde. As famílias se entretêm. Nesse segundo. Nesse segundo a menina de treze sonha escondida. O pai se perde na conta ao ouvir os latidos. O velho passeia seu cachorro no asfalto. A lua é crescente. Os cachorros avisam-se. A mulher manda ficar quieto pelo amor de deus. Deus resolve um perhaps na Tailândia. O guarda noturno comprova que vem mesmo um dia depois de receber. A senhora sente saudade. Sente muita saudade. A criança faz o boneco da direita derrotar o da esquerda. O boneco da esquerda não percebe. O cara aperta um e planeja o que não se pode abrir assim. A outra menina de treze conhece um pouco mais do seu corpo do que conhecia semana passada. O outro pai suspeita de sua segunda mulher. O outro velho não quer mais sentir essa dor. Seu cachorro morreu. A lua é crescente. Os outros cachorros coçam o que imaginariam ser sarnas. A outra mulher não vai ligar nunca mais pra irmã. O outro Deus pensa melhor. O outro guarda noturno não vai cumprir seu turno. A outra senhora se apavora, esqueceu mais um pensamento.  A outra criança sabia que o vulto voltaria. O vulto paira. O outro cara não sabe mais o que fazer. A terceira menina de treze não quer se mudar dali. O terceiro pai vai ao banheiro no comercial. O terceiro velho vai matar o desafeto. Não suporta cachorros. A lua é crescente. Terceiros cachorros inexistem. A terceira mulher quebrou a unha. O terceiro Deus concui ter sido o melhor a fazer e não se fala mais nisso. O terceiro guarda noturno vai pro semiaberto mês que vem, como passa. A terceira senhora implora ao terceiro velho que não faça isso, vai desgraçar a todos. A terceira criança será um cientista político. O terceiro cara olha o espelho e não, vultos não existem, foi só impressão. A câmera retrocede desrespeitando ondulações, não repara em telhas, volta todos os telhados, esquadria de alumínio, parede embolorada, chão morno, mesa entulhada, notebook, dedos, eu.

domingo, outubro 07, 2012

Uma semana

É o tempo necessário pra laços muito fortes e bonitos serem desfeitos como pó; a ação que causa dez anos de preocupação ser julgada e o que mais se temia estar mais perto de se concretizar; expectativas afetivas se desfazerem; o resultado de uma eleição tirar todo o teu respaldo e te deixar a pé. Uma semana. Mas eu sigo enfrentando. E luto até o fim.

terça-feira, setembro 18, 2012

"Os dias passam horas se estendem". Parágrafos escritos, parágrafos apagados. Necessidade de escrever pensando na ponta dos dedos não importa o sentido nem assunto nem concatenação nem nada. E se fosse pra Buenos Aires, Caraíva, São Francisco Xavier. Bem sei o que todos esses lugares têm em comum quando eu estiver em algum deles. E em outros. E tudo vai seguindo e o texto evoluindo ainda que o que eu queira dizer ainda não seja conhecido por mim, mas sei que tem algo e já já esse algo sai e se não sair eu vou dormir e amanhã esqueço, tudo é esquecível, no final das contas. Mensagens soltas mas diretas não são respondidas. O que me segura? O que não me faz deslanchar? O que me prende nessa poltrona, nesse estado de coisas? É de bom tom abrir assim, num post público? Dane-se. Há dias e dias. E hoje o dia é esse. Eu bem sei o que todos os lugares têm em comum. Revelando São Paulo. "Não existe amor em Ésse Pê". Nem tampouco em Ésse Pê de Pê, não existe amor não. Revelando São Paulo, Criolo, Marley Project, eu bem sei o que esses eventos vão ter em comum. Se eu fecho os olhos eu sinto o vento vindo do ventilador, ouço barulho dele e da geladeira ao fundo e à esquerda. Algum carro eventual. Se eu abro vejo a cortina tremular leve, sinto o contato do corpo com a poltrona, a extensão e a almofada do note. Sinto o cheiro ainda da tinta, bem pouca, ainda o gosto dos biscoitos de agora pouco. Se eu olho pra trás, ou vejo a parede ou vejo saudade. Se eu olho pra frente, eu não quero dizer o que vejo. Até porque eu sei que o que vejo agora não vai ser o que verei amanhã cedo, nem amanhã à tarde. Não quero dizer e pronto. Consigo implicar com praticamente todos. Enjoei de saber os cotidianos das pessoas conhecidas. Enjoei de muita coisa. Muita coisa. Esse não é um bom texto para ser publicado. Sem valor literário algum, sem a menor utilidade, exposição gratuita de momentos enfastiados, quem ganha com isso? Ensaio pequenos saltos, escondo desse blog, não misturo as coisas. Dias depois, olho pro resultado dos pequenos saltos e a vontade é apenas uma: deletar. Eu me devo um texto decente. Escrevo e paro com tudo isso aqui, que já deu o que tinha que dar. 
Mi menor. 3 vezes, lentas. Lá maior. Uma vez, longa, de baixo pra cima. Si maior com sétima. Mi menor. cortinas meio tortas meio pensas, eletricidade vira vento no aparelho virado pro meu peito, violões pizza guaraná vinho formigas moedas sonhos estou falando com ela o que sinto o que sinto o silêncio as horas acha digno amplificador castanhas livros sem vírgulas meu pensamento é assim ninguém pontua ideias. 
Uma viagem um roteiro um destino uma pousada um refúgio uma solidão do tamanho de um maracanã reformado. Si maior com sétima, com mais tensão, com os dedos da esquerda fazendo as vezes de um delay tosco, mi menor 3 vezes pra encerrar. Ninguém pontua ideias, sentimento não se fecha em parênteses, texto fake se assim for. Texto fake, se assim for. Trilha montanha suor fôlego lembrança pausa pedra bromélia foto pássaro desejo corrida pulsação chegada costas na pedra óculos escuros sol riso sono paz. É disso que preciso, é disso que eu falo. "Eu não vou mudar mas minha vida agora é outra/Eu vou tentar entender o que sai da tua boca/É só por isso, vivo por isso, vivo por isso e sem isso eu não vivo/Se você quiser entender, então me deixa te explicar/Rua de concreto, sangue nobre, água do mar/Rôle no meu impala, pode acreditar/Dinheiro na mão, brisa no olhar/Tem pra mandar trazer, tem, tem pra mandar buscar, vai!/Tem pra mostrar poder, tem, tem pra te alucinar/Eu não fico dividido, eu sei porque tomo partido/O sistema é falido e já aconteceu comigo" CBJr pra inspirar o início da madruga, me voy tbm.

terça-feira, setembro 04, 2012

Microconto I


Era num dia quente, logo pela manhã, os mestres incumbiram o menino de levar o fogo perfeito para acender a vela primordial.
Relutou em ir, mas não podia deixar de fazê-lo. Eleito, teve sobre si depositadas as esperanças mais elevadas de todo o clã. Ele simplesmente não tinha escolha.
Iniciou sua marcha tímida e, passados os cem primeiros passos, longe dos acenos dos seus, sequer se viu dentro da mata. Sua mente flutuava no rio, onde estivera com seus amigos havia poucos dias, brincando de levar o fogo perfeito, enquanto outros tentavam afundar sua cabeça na água para, quem conseguisse, levar o pedaço de pau feito fogo por alguns metros, até ter sua cabeça igualmente afundada na água limpa, aos risos e gritos dos demais. Devaneava e ria, até que a forte dor sentida chamou sua atenção para os dedos da mão que conduzia o fogo, rubros e imóveis.
Sim, fora avisado: o fogo perfeito não aceitava distrações. Engoliu o soluço, algum mentor poderia estar oculto nas folhagens nesse início de caminhada, para certificar-se do sucesso da empreitada. Não poderia demonstrar tal fraqueza.
Seguiu dia, noite e dia. Lembrou-se de cada ensinamento, não houve um único dia em que não fora preparado, tudo para aquele exato momento. O rigor e, por vezes, a brutalidade das lições tinham a sua razão: não haveria espaço para fracasso. Lembrou-se de ter sentido tantas vezes o medo de ser o escolhido e mais não pôde. O fogo trazia-lhe aos ouvidos, de modo tão enfático, as vozes dos mentores: iniciado o caminho do fogo perfeito, não há lugar para o medo. Chorou ao ver sua mão, punho e parte do braço inertes, vermelhos seriam até alcançar a vela primordial, como pôde se esquecer de não sentir medo?
Nuvens compassaram a ira por mais essa falha, pelos raios que, em intricada simetria, balizavam o caminho do menino.
Tentou acalmar a sua mente confusa, maravilhando-se pelo que já sabia: a chuva nada podia diante do fogo perfeito. Tentava compreender o quanto os anciãos lhe fizeram em cada instante de sua breve vida, a transformar a sua natureza humana de tal forma que não sentisse frio, fome, sede, nenhuma necessidade chã, naqueles poucos dias de caminhada.
Sem jamais deixar de andar, olhou para o fogo de forma diferente, nele imaginando ver todos os outros que o antecederam. A glória com a qual lhes cantavam as gerações, a perderem-se os séculos e ele, o menino, a partir dali seria um deles. Sua memória seria enaltecida em infindáveis e nobres ocasiões, por pessoas que jamais imaginaria conhecer, pois sequer seus ancestrais eram nascidos naquele momento em que a dor lhe consumiu o restante do braço e a respectiva lateral do tronco, até parte do pescoço. Olhou para o fogo como se buscasse uma explicação e, por um momento, o fogo perfeito pareceu-lhe sorrir vitorioso. Não se cogita a vaidade no caminho da vela primordial.
Procurou acostumar-se com a dor dilacerante que tanto passou a dificultar a sua respiração. E tanto precisaria dela, foi o que pensou ao deparar-se com a montanha de improvável sinuosidade, que se lhe mostrava desafiadora, em cujo cume haveria de estar a deslumbrante vela primordial, salvadora de seu povo.
Todos direcionavam certamente a ele os mais elevados pensamentos, mal esperando o instante em que a luz avermelhada no topo da mais alta montanha denotaria o sucesso do menino e garantiria a paz para as próximas eras.
Exausto, quedava-se perplexo por não ser mais sua a parte do corpo agora transformada naquela estranha forma em metal vermelho, na ponta da qual o que fora sua mão conduzia o intenso fogo. Passou a rememorar as deslumbrantes descrições daquele maravilhoso mundo para onde rumam os eleitos, tão-logo cumprem a sublime tarefa. Atento, procurou desviar seu pensamento de qualquer indício de soberba. Não mais sentiria um átimo sequer daquela dor. Bastaria usar sua inteligência. O fogo saberia reconhecer qualquer deslize, então tudo o que precisava fazer era agir racionalmente.
A beleza suprema do fogo perfeito seria utilizada por ele, em seus pensamentos, para afastar qualquer consequência adversa ao seu bem-estar. Bastava forjar sentimentos simpáticos às características do fogo, isso, olhar como ele brilhava soberano, nada na natureza era capaz de suplantar qualquer de suas infinitas qualidades. Assim, fogo, és imbatível. Apenas aquele que o sente e o conhece desta maneira percebe tuas notas ímpares, tão extasiantes que permitem àquele que assim pensa e conhece, ser teu senhor. E nesse instante o fogo dominou toda a lateral do menino, na qual era conduzido, tornada cúprica, causando indizível dor ao que ainda era carne. O fogo perfeito não admite adulações perniciosas.
Nesse estado o menino continuou a subir, por mais noite e dia, carne a arrastar metal, com a dor a impedir-lhe de sentir algo que lhe pudesse causar mal, ou bem, pois apenas pressentia o exato instante, a se aproximar, em que poria o fogo perfeito na vela real, para então tudo o que lhe ocorrera até ali retrocedesse. Então, ele iria ao lugar dos demais eleitos, onde poderia descansar, recuperar-se e continuar a sua vida de menino.
Com esses pensamentos chegou ao topo da montanha. Percorreu com os olhos, feliz e plenamente realizado, por toda a volta do majestoso cume. Vencera seus principais defeitos, agora compreendia, para que pudesse cumprir o exato papel, em prol de seu clã. A paz e a felicidade por alguns minutos fizeram-no esquecer da dor. Bastava apenas depositar o fogo perfeito na vela real.
Mas, onde a vela real? Não havia nada naquele cume. Como era estreito, não caberia mais que o espaço de seu próprio corpo. Onde o imaginado portal para o mundo dos eleitos? O que fizeram com ele? Por que não disseram nada? O que seria... não mais pensou, nem poderia pensar.
Naquele momento, o clã passou a festejar o brilho intenso do fogo perfeito, no cume da mais alta montanha, como a anunciar a paz para as próximas eras.

sexta-feira, agosto 24, 2012


Transitou em julgado. Eba. Parabéns, essa foi linda... salvo engano uma das peças vc me deu as diretrizes quando vc já estava internado. Colaborei, sim, mas depois do que vc fez ficou fácil. É bem um símbolo de todo o resto. Vc trilha o caminho, depois fica fácil. E agora vc tá vendo tudo daí, o que eu ando fazendo aqui. Tua visão tá bem ampla, sabe das coisas que todos nós esquecemos. Entende muitos motivos que não me entram não me entram não me entram na cabeça. Mas aprendi isso, sabe, que tem que seguir. Largando cada vez mais os por quês de mão, pra ficar com os para quês. Tenho uma ideia mal-formada, sabe? De que o tempo/passado/futuro não existe. Lembro daquela conversa esquisita que tivemos na sala, diz aí, eu tava meio desviando a rota e vc resolveu sondar o que se passava comigo. Vc começou a falar algo da filosofia hegeliana, acho até que foi numa das vezes que falou da tal espiral, e eu expus minha teoria amalucada de que o tempo é como uma folha de papel em que vc une duas pontas opostas, começa de uma ponta, vai se expandindo, cada vez mais complexo, cada vez mais elaborado – e a gente pode imaginar o caminho da ponta da folha até a metade dela, até que quando passa da metade, vai tudo se simplificando, se sintetizando, se unificando, até chegar ao mesmo ponto, unido ao ponto inicial, pra começar tudo de novo, como uma descomunal respiração, num movimento de onda e, sim, espiral. Lembro um pouco da cara que vc fez, falando que não tinha sentido, voltou pro Hegel e eu passei alguns anos preocupado com sentidos rs. Mas diz aí, vc tava só sondando pra ver se eu não fumava maconha ou algo assim, tava no seu papel. O dia em que meu filho não nascido for adolescente eu também vou ter essas conversas. O que eu queria dizer e talvez não tenha me expressado bem é que a minha filosofia de botequim era muito parecida com que o Hegel dizia, só me faltava a erudição. Que falta que vc faz. Em todos os sentidos. Quantas conversas eu precisava ter com vc. Mas a vida é assim, como dizia o Nasi entre os acordes do Scandurra: “se meu filho nem nasceu, eu ainda sou o filho”. E como filho eu vejo vc, pai, onde estiver, te vejo como um cara como eu, com toda a clareza que só quem chega aí readquire. Eu sigo batendo a cabeça, fazendo burradas, mas seguindo o que tenho que seguir. E vou inventando acordes pra assobiar na estrada, talvez eu tenha habilidade pra colocá-los em cordas tensionadas um dia. Meus rumos vão mudando, eu saio pelo lado esquerdo do trem e tomo outras direções, espero em outras estações outros trens que virão. Eu tive que me separar de algumas lindas certezas e pisar no escuro úmido e frio. Alguns comprimidos a mais, uns tantos conceitos a menos, uns objetivos dobrados em barcos de papel navegando outras enxurradas, vou aprendendo a diferença entre desistir e mudar a rota. E a vida fica tão mais plástica, mais nítida, embora ainda resvale em umas quebradas oblíquas. Mas como eu sinto tua falta, vc bem sabe. Aqui a mãe está bem, começou a se cuidar mais, nos dá todo o apoio. Continua te amando como sempre. Fala as passagens que vcs viveram quarenta anos atrás como se tivesse sido a semana passada. Não fui capaz de ser pra Ale o que vc foi pra mãe, no fundo em resumo é isso o que eu acho. Toca o barco. As coisas de socorro vão caminhando. Engraçado eu me dar conta de que estou insone escrevendo e à minha esquerda tocam alguns rocks desconhecidos de vinte anos depois dos rocks que eu ouvia quando vc teve aquela conversa comigo. Se eu olho um pouco pra baixo entre as duas abas da camisa desabotoada eu vejo a barriga que não tinha naquela época. Minhas mãos estão mais cheias, cada dia mais parecidas com a tua, vivo repetindo, ta chato já. Estou numa casa e – que estranho, eu olho pra todos os lados e vejo objetos e aparelhos e violões e coisas assim que fui comprando esses anos. Por que tudo isso – e até isso, me causa estranheza? Falta alguém aqui comigo, sabe? Talvez seja só isso. O Di está bem também, continuamos naquela distanciazinha atenciosa mútua, nos gostamos muito, mas respeitamos os espaços que tontamente impusemos entre nós. A Naninha ta muito bem, o Guilherme é ponta firme, vcs iam conversar muito sobre tudo, eles vão seguir felizes. E é isso, pai, hoje não choro mais quando escrevo essas cartas pra vc, mas continua não havendo um só dia em que não pense em vc. Um só dia. Vc sabe. Todas nossas ações vão transitando em julgado, brinco que quando vc se foi vc deve estar inspirando os desembargadores, vc ganhou praticamente todas. Estou aprendendo dura e constantemente a ter mais confiança, a ter um pouco daquela confiança que vc tinha. Ganha relevo uma vez mais a imagem só contada – mas tão recontada que praticamente vejo – vc chegando na enchente, de shorts e sem camisa, tendo acabado de perder tudo o que tinha, pra pedir a mão da mãe em casamento. E todos contam que vc nem ficou triste com a perda. Se vc não tivesse deixado nada pra gente, só essa história real, já daria pra gente tomar todas as atitudes que viessem a se fazer necessárias. É por isso que, decida eu o que decidir, eu sei que no final vai ficar tudo bem, por mais percalços que eu mesmo gere. Esses rocks são bem bons, sabe? A MTV segue sendo melhor de madrugada, sem aquelas bobagens diurnas. E isso que eu to sentindo agora? Essa presença? Essa coisa boa? Esse insight? Essa vontade de comer a vida? De que as estradas sejam engolidas pelo carro que eu dirijo? Uma mão cristalina daí do alto com seu indicador de luz tocando o capô do meu carro, respeitando os movimentos quase imperceptíveis dos meus braços na direção, enquanto tocam os mesmos rocks de sempre da MTV? O é isso, senão vc? Seja como for? Só lembrança, vc mesmo, teu DNA transmitido correndo cada célula? O que são esses acordes dessa banda desconhecida, cujo nome vou pegar ao final do clip e baixar todos os dois ou três álbuns que certamente terão gravado? O que é essa sensação de paz e essa vontade de [universo paralelo]? Some Community é o nome da banda. Transitou em julgado. Cumpra-se o venerando acórdão. Te amo. 

terça-feira, agosto 21, 2012


Volta pra lá, Casimiro, quem manda aqui sou eu. 
Sabe quando a morte de um blog se aproxima? Quando acontece isso, ó: meu amor eu sinto muito muito muito mas vou indo/pois é tarde, muito tarde e preciso ir embora/sinto muito meu amor mas acho que já vou andando/amanhã acordo cedo e preciso ir embora/eu queria ter vc mas acho que já vou andando/outro dia pode ser mas não vai dar pra ser agora. 
Quando a pessoa enxerta letra de música no texto é o sinal mais cristalino de falência múltipla de órgãos. 
Mas deixa isso pra lá. Falemos de vontades. Eu tenho hoje vontade de fazer um churrasco. E reunir um pessoal antigo com o pessoal novo e um pessoal de sempre. Mas um churrasco que comece na sexta a noite e termine no domingo comigo colocando vassouras atrás da porta pra poder começar a semana e quando fechar o portão notar algum retardatário dormindo de boias amarelas nos braços. 
Preciso arrumar um motivo para o churrasco. Pronto, cinco segundos, encontrei. Vai ser a minha comemoração dos 40 anos fake. Porque decidi que tenho quarenta anos. Ano que vem, em janeiro, farei 40 anos. Ano seguinte, 40 anos. No outro, 40 mesmo. Só volto a prosseguir qdo fizer 41. Porque daí param com essa ideia de que 'vc já tem quase 40' e isso e aquilo e aquiloutro.
Minha casa foi "palco" de festas memoráveis. Lembro vagamente de pessoas sendo puxadas num tubo de tapete dobrado; fila no lavabo (do lado de fora do lavabo); exibições de filmes clandestinos que ninguém jamais poderia suspeitar, além daquele bando que sabia do segredo; garrafões de vinho velho arrecadados em gincanas do grêmio estudantil (um saco de arroz valia 5 pontos, um garrafão de vinho ou pinga valia 100); eu berrando que "em cima dos processos não, porra!"; coca-cola + pinga (aiai, mais alguém sabe que o nome disso é samba, identificação total) +, sim, formigas. Acordaram meu saudoso boxer na falecida lavanderia pra pegar garrafas de litro de coca-cola em vidro, tiveram preguiça de levar as ditas pro claro e verteram coca com pinga lá mesmo pelo funil, entre os desinfetantes e os amaciantes. Alalaô léguas depois desde minha casa ao finado carnaval do São João, no caminho alguém nota que a mistura estava crocante. Sim, cabeções, não lavaram as garrafas e tomaram samba com formiga. Tomamos. 
Vou deixar trazerem pessoas desconhecidas como antes, mas, pra tanto, será como antes, espírito financeiro-colaborativo pq eu não to aqui pra sustentar bebum anônimo, aí sim serão todos bem recebidos. Quero ouvir causos como o do pernilongo de escafandro em ilha grande, o portal entre são thomé e machu picchu e contar das minhas passagens no alto do jaraguá. Quero fugir das rodinhas que falem de política alegando a verídica necessidade de dar atençãozinha ali praquelas pessoas que discutem a situação da amandita na casa da daniela (onde estará daniela...).
Esperarei a família ir pra Socorro, pro tributo ficar completo. Proibirei entrada de menores, com dor no coração, afilhada, um dia o dindo faz uma festa só pra vc lá. 
Fecharei o quarto da minha mãe a chave, como de costume, vá que alguém queira tornar o tributo mais que completo. 
Cobrarei as cadeiras plásticas porventura esquartejadas mas me encarrego de limpar depois a água da piscina sem praguejar. 
Vou fazer tudo isso pra ter aqueles segundinhos embriagados de olhos semicerrados vendo geral insuspeita interagir e então vou poder concluir avulsamente: é, bichão, tá tudo indo bem, feliz 40 fake.

sábado, agosto 18, 2012

CASIMIRO'S DAY

Quem não frequenta esse espaço desde o seu nascimento, talvez não saiba quem eu sou. Eu não sou o parvo do Madureira. Sou Casimiro, ao seu inteiro dispor. Há um breve relato sobre a minha injustiçada persona na ementa do blog. Caso não tenha tido a paciência ou a curiosidade de olhar, a perspicácia certamente não lhe fez deixar de notar a infame figura na sua lateral direita, do filmete Eu, Eu mesmo e Irene. Sim, a ementa diz que esse espaço é a perene contenda entre dois neguinho turrão, eu, o Madureira e eu, o Casimiro. Moramos no mesmo corpo, no mesmo cérebro, na mesma alma, no mesmo weblog. 
Ocorre que sou deslealmente vencido na batalha pela minha expressão. Madureira, como todos sabem, tem um alter ego, o irrelevante, para essas plagas, nelsinho. Pois eles sistematicamente se unem, me tacham de simples Id e me trancam naquele calabouço com tratamento acústico, pagando meu silêncio com ar condicionado, lindas mulheres, alucinantes jogos e tragos sem fim. 
Mas ni qui eles descuidam, eu volto. 
E agora não voltei pela coincidente assertiva e aconselhamento que receberam a respeito de nós (madureira e casimiro, já já desenho). De que deveriam fugir de nós, que somos bipolares, que temos, veja só você, du-pla-per-so-na-li-da-de... A que pergunto, segurando as cordas das velas do meu navio: onde está o demérito?? Quiséramos nós ter mil personalidades, em vez de duas. Ah, Pessoa, me ajude vá:
"Não sei quem sou, que alma tenho.
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo.
Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros)...
Sinto crenças que não tenho.
Enlevam-me ânsias que repudio.
A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me ponta
traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha,
nem ela julga que eu tenho.
Sinto-me múltiplo.
Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos
que torcem para reflexões falsas
uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.
Como o panteísta se sente árvore (?) e até a flor,
eu sinto-me vários seres.
Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente,
como se o meu ser participasse de todos os homens,
incompletamente de cada (?),
por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço" (Fernando Pessoa).
Aííí, Pessoinha velho de guerra, mostra como é que é. 
Mas eu dizia, não venho por causa disso, isso é coisa pro Madureira resolver, não tenho nada a ver com isso.
Venho primeiro pelo aludido descuido. E venho, sim, pelo mundo.
Não sou apenas eu quem percebo - e percebo há tempos, até o madureira concorda - que o sistema político-econômico assemelha-se cada vez mais a um fim de filme de indiana jones mal editado. Que estamos passando por um momento de transição que vai tumultuar várias estruturas cuja ruína sempre foi previsível, agora está visível. Lá do calabouço liguei os pontinhos do que vcs já começam a se esquecer: Egito, Líbia, agora Síria. Pra ficar nos exemplos mais garrafais. Nada que as agências de notícias internacionais tenham de se esforçar muito pra disputar ibope com o Datena.
Eu venho mesmo, é bradar pelo que vem por aí! O que me instiga é o movimento simbolizado pela figurinha ali em cima do texto. O que me exalta são as Temporary Autonomous Zone de Hakin Bay, os crowd founding pululantes, a nova ética da pirataria. O que me intriga são os playboys como o madureira e, vá lá, eu mesmo, assobiarem as letras de Criolo no banho. O que comove são, sim, as Pussy Riot, que imagino desdenharem das vozes pop-rock que se elevam a seu favor, num crescente. E agora, Madureira? Como fica intrínseca culpa judaico-cristã dos teus, a prestar solidariedade ao regime de Putin? Larga mão desse rubor, Madura. O que vc vai falar pros teus coleguinhas que acreditam, imbecis, que o Assange cometeu estupro? E que a Inglaterra e Suécia e praticamente um time Resto-do-Mundo, que jogam um jogo marcado de despedida de algum jogador que se aposenta, que curvam-se, sim, ao ainda atual, sim, poderio estadunidense pra chorar pitangas pela peraltice do Equador, que ofereceu o asilo político ao cabra? Acorda, meu! Tá tudo interligando! Vai chegar uma hora em que vc vai ter que se decidir, entre a segurança rançosa e a liberdade explosiva. Entre sua vidinha detrás do computador e a advocacia pro sabará! Tá chegando a hora, rapazinho. E, cá entre nós, parabéns pela escolha. Não fuja de nós não, viu? Se continuar conosco, os dupla-personalidades, vai se divertir muito.
CMU - against the world. 

quinta-feira, agosto 16, 2012

Quem são vocês? Que se recolhem nessas noites sob essas luzes amarelas e cintilantes? Assistem à TV? Ajudam os filhos nas lições? Jogam videogame? Escrevem cartas para os namorados? Dão comida pros gatos? Ouvem também folk indie rock music anyway? Ouvem bolero? Tornam-se bolero? Imaginam-se astronautas, ciganas, jogadores da NBA, mães de vários filhos? Choram uma perda, um equívoco, uma distância? Esquentam a comida pensando em quão cedo vão acordar horas depois, amanhã? Quem são vocês, hein? Que brincavam na beira da estrada quando o menino ia do interior com sua pantera e seu gibi do superman ver se precisava pôr botas ortopédicas? Quando o menino descobriu a palavra favela? O que seus pais faziam? O que aquelas mulheres conversavam? Como estão eles hoje? Deu tudo certo? E vocês? O que aconteceu com vocês? Vocês tinham suas panteras e seus gibis? Hoje vcs rimam? Somos tão diferentes assim? Quem são vocês? Que ouvem moda de viola na luz do lampião? Que sabem a chuva, o frio, a estação? Que entoam rezas e louvores e se endurecem ternamente diante do que às vezes lhes acontece? Que pitam seus cigarros de palha e matutam e decidem se é melhor vir pra cá? O que vocês esperam dos seus filhos? O que vcs fazem pelos seus pais? Quem são vocês? Miríades de alternativas, escolha-se um de vocês, do passado, do interior, das boas lembranças. Seo Remo. Seo Remo e sua oficina mágica. O cheiro da oficina. Todas as centenas de milhares de ferramentas cuidadosamente penduradas na parede de madeira. O cheiro de fumo. O colchonete roto sobre a espreguiçadeira. O cheiro do carbureto de caçar rãs. As décadas guardadas em objetos enferrujados, bem dispostos. Seo Remo, no que o senhor pensava? Por que insistiu todas as vezes necessárias até que aquele menino tímido aceitasse a fatia de mortadela com limão? Por que o menino lembra trinta e tantos anos depois do sorriso largo por tê-lo convencido a aceitar? Talvez porque naquele dia, seo Remo, o menino tenha feito amizade com seus filhos e, desde então, não saía daquele beco com aqueles moleques todos, todas as férias e finais de semana possíveis, jogavam basquete, taco, pipa, barquinho no rio, polícia e ladrão, pega, esconde. Foi ali, seo Remo, que o menino salvou aquela bola da tacada certeira, ainda que tenha se esquecido por um instante da existência do muro da casa do avô na calçada e nele tenha impresso seus dois joelhos peito e cara. Mas agarrou a bola. Ganhou o jogo e tema pra vários posts. Fizeram um dia vaquinha e foram à farmácia comprar Capiloton, e passaram esperançosos cada qual no seu respectivo baixo ventre, pra ver se nasciam logo os pelos. Seo Remo, o menino lembra do cheiro da oficina. Mas me diga, no que o senhor pensava? Nunca pareceu triste, nem alegre, não aparentava nada além da mais absoluta serenidade. Era o senhor um zen budista socorrense, seo Remo? O senhor pensava no futuro ou no passado, seo Remo? Hoje o senhor é uma luz amarela e cintilante, assim como as outras ao redor, que iluminam o beco e, ampliando, as ruas próximas, o centro, a cidade. O senhor é bom, seo Remo. E o senhor faz parte desse mundo de pessoas, que se recolhem em noites como essa. Quem, afinal de contas, são vocês?