terça-feira, setembro 04, 2012

Microconto I


Era num dia quente, logo pela manhã, os mestres incumbiram o menino de levar o fogo perfeito para acender a vela primordial.
Relutou em ir, mas não podia deixar de fazê-lo. Eleito, teve sobre si depositadas as esperanças mais elevadas de todo o clã. Ele simplesmente não tinha escolha.
Iniciou sua marcha tímida e, passados os cem primeiros passos, longe dos acenos dos seus, sequer se viu dentro da mata. Sua mente flutuava no rio, onde estivera com seus amigos havia poucos dias, brincando de levar o fogo perfeito, enquanto outros tentavam afundar sua cabeça na água para, quem conseguisse, levar o pedaço de pau feito fogo por alguns metros, até ter sua cabeça igualmente afundada na água limpa, aos risos e gritos dos demais. Devaneava e ria, até que a forte dor sentida chamou sua atenção para os dedos da mão que conduzia o fogo, rubros e imóveis.
Sim, fora avisado: o fogo perfeito não aceitava distrações. Engoliu o soluço, algum mentor poderia estar oculto nas folhagens nesse início de caminhada, para certificar-se do sucesso da empreitada. Não poderia demonstrar tal fraqueza.
Seguiu dia, noite e dia. Lembrou-se de cada ensinamento, não houve um único dia em que não fora preparado, tudo para aquele exato momento. O rigor e, por vezes, a brutalidade das lições tinham a sua razão: não haveria espaço para fracasso. Lembrou-se de ter sentido tantas vezes o medo de ser o escolhido e mais não pôde. O fogo trazia-lhe aos ouvidos, de modo tão enfático, as vozes dos mentores: iniciado o caminho do fogo perfeito, não há lugar para o medo. Chorou ao ver sua mão, punho e parte do braço inertes, vermelhos seriam até alcançar a vela primordial, como pôde se esquecer de não sentir medo?
Nuvens compassaram a ira por mais essa falha, pelos raios que, em intricada simetria, balizavam o caminho do menino.
Tentou acalmar a sua mente confusa, maravilhando-se pelo que já sabia: a chuva nada podia diante do fogo perfeito. Tentava compreender o quanto os anciãos lhe fizeram em cada instante de sua breve vida, a transformar a sua natureza humana de tal forma que não sentisse frio, fome, sede, nenhuma necessidade chã, naqueles poucos dias de caminhada.
Sem jamais deixar de andar, olhou para o fogo de forma diferente, nele imaginando ver todos os outros que o antecederam. A glória com a qual lhes cantavam as gerações, a perderem-se os séculos e ele, o menino, a partir dali seria um deles. Sua memória seria enaltecida em infindáveis e nobres ocasiões, por pessoas que jamais imaginaria conhecer, pois sequer seus ancestrais eram nascidos naquele momento em que a dor lhe consumiu o restante do braço e a respectiva lateral do tronco, até parte do pescoço. Olhou para o fogo como se buscasse uma explicação e, por um momento, o fogo perfeito pareceu-lhe sorrir vitorioso. Não se cogita a vaidade no caminho da vela primordial.
Procurou acostumar-se com a dor dilacerante que tanto passou a dificultar a sua respiração. E tanto precisaria dela, foi o que pensou ao deparar-se com a montanha de improvável sinuosidade, que se lhe mostrava desafiadora, em cujo cume haveria de estar a deslumbrante vela primordial, salvadora de seu povo.
Todos direcionavam certamente a ele os mais elevados pensamentos, mal esperando o instante em que a luz avermelhada no topo da mais alta montanha denotaria o sucesso do menino e garantiria a paz para as próximas eras.
Exausto, quedava-se perplexo por não ser mais sua a parte do corpo agora transformada naquela estranha forma em metal vermelho, na ponta da qual o que fora sua mão conduzia o intenso fogo. Passou a rememorar as deslumbrantes descrições daquele maravilhoso mundo para onde rumam os eleitos, tão-logo cumprem a sublime tarefa. Atento, procurou desviar seu pensamento de qualquer indício de soberba. Não mais sentiria um átimo sequer daquela dor. Bastaria usar sua inteligência. O fogo saberia reconhecer qualquer deslize, então tudo o que precisava fazer era agir racionalmente.
A beleza suprema do fogo perfeito seria utilizada por ele, em seus pensamentos, para afastar qualquer consequência adversa ao seu bem-estar. Bastava forjar sentimentos simpáticos às características do fogo, isso, olhar como ele brilhava soberano, nada na natureza era capaz de suplantar qualquer de suas infinitas qualidades. Assim, fogo, és imbatível. Apenas aquele que o sente e o conhece desta maneira percebe tuas notas ímpares, tão extasiantes que permitem àquele que assim pensa e conhece, ser teu senhor. E nesse instante o fogo dominou toda a lateral do menino, na qual era conduzido, tornada cúprica, causando indizível dor ao que ainda era carne. O fogo perfeito não admite adulações perniciosas.
Nesse estado o menino continuou a subir, por mais noite e dia, carne a arrastar metal, com a dor a impedir-lhe de sentir algo que lhe pudesse causar mal, ou bem, pois apenas pressentia o exato instante, a se aproximar, em que poria o fogo perfeito na vela real, para então tudo o que lhe ocorrera até ali retrocedesse. Então, ele iria ao lugar dos demais eleitos, onde poderia descansar, recuperar-se e continuar a sua vida de menino.
Com esses pensamentos chegou ao topo da montanha. Percorreu com os olhos, feliz e plenamente realizado, por toda a volta do majestoso cume. Vencera seus principais defeitos, agora compreendia, para que pudesse cumprir o exato papel, em prol de seu clã. A paz e a felicidade por alguns minutos fizeram-no esquecer da dor. Bastava apenas depositar o fogo perfeito na vela real.
Mas, onde a vela real? Não havia nada naquele cume. Como era estreito, não caberia mais que o espaço de seu próprio corpo. Onde o imaginado portal para o mundo dos eleitos? O que fizeram com ele? Por que não disseram nada? O que seria... não mais pensou, nem poderia pensar.
Naquele momento, o clã passou a festejar o brilho intenso do fogo perfeito, no cume da mais alta montanha, como a anunciar a paz para as próximas eras.

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