quinta-feira, fevereiro 23, 2012

Estou no último volume (o sétimo) de um dos melhores romances que vou ler em toda vida e com a resignação de que não me resta remédio senão relê-lo, oportunamente, talvez trelê-lo na velhice, como planejo e faço com os melhores (que já ando relendo). Vou escrever muita coisa sobre O Tempo e o Vento, mas hoje me assalta a mesma constatação desde o antepenúltimo volume, quando entrou em cena Floriano Erico Cambará.
Não somente o gaúcho, mas todo homem brasileiro, talvez todo estrangeiro também, ao olhar atento os personagens, reconhece-se ao longo das gerações dos Terra Cambará. Pois tive a nítida impressão de que eu era Licurgo, depois a convicção (orgulhosa) de que era seu filho, Rodrigo, derrubada apenas pela certeza, de que sou Floriano Cambará.
Não é só comigo que deve acontecer a coisa. Essa obra épica pode ser lida dos mais diferentes ângulos, mas talvez o óbvio seja o de mais fácil assimilação: a personalidade dos vários e sucessivos protagonistas.
Desgraçado esse autor, que joga na cara da gente, dentre tantas outras coisas, os nossos Retratos. E por que eu me vejo, nesse momento, depois de décadas, numa ocasião esquecida, moleque em Atibaia, de uns onze para doze anos, como Floriano com seus dezenove, com uma arma na mão sem a coragem gaúcha de atirar em Bernardo Quaresma; na verdade, sem arma alguma, mas com a exata sensação descrita, ao tentar fugir da situação absurda que a ordem estabelecida me impunha?
E até que ponto aquele momento de que ninguém mais se lembra, nem eu me lembrava, não me formou e conformou e contribuiu para tanta dificuldade que sinto hoje em lidar com as situações – nem tão absurdas, que a ordem estabelecida impõe a todos nós?
Um dia eu escrevo sobre isso, nesse eterno caderno de pauta simples, de mil utilidades.

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