quinta-feira, janeiro 26, 2012


Acordou  tarde. Pôs mais tarde. E mais. Deu-se o direito de descansar naquela noite-manhã. Recusou-se a prometer que jamais jogaria sinuca até tarde. Apenas constatou que naquele momento ele não queria jogar sinuca. Constatou, porém que ele tinha vários momentos e jamais teria controle sobre sua vontade em todos eles. Entrou na rede com o objetivo de ver as publicações diárias. E surfou aqui e ali, até que chegou em Jung:

Reporter: “...and did you believe in God?”
Carl Gustav Jung: “Oh, yes!”
R: “And now, do you believe in God?”
CGJ: “Now? (pause) Difficult to answer... I know (smile). I don’t need to believe. I know”.

Acendeu uma vela no centro da sala, para seu guardião encaminhar a sua emoção a Jesus Cristo. 
Lembrou-se da simplicidade aprendida a caminho de Compostela. Naquele descanso, tinha descanso e precisava de alimentos. Prestou atenção em cada fruta que lavava, espremia, descascava, tirava caroços. Apreciou um de seus 100 pequeníssimos prazeres: ver as frutas liquidificarem-se e fundirem-se aos grãos que despejou. Sorveu o produto.
Andara meses antes por 150 km com apenas 7 kg de instrumentos necessários às costas. Hipocrisia esquecer que possuía um cartonete que o interligava a um sistema bancário internacional, porém burrice não perceber que poderia, sim, desprezar o cartonete e se virar.
E é aqui que, curiosamente, quis chegar.
Alimentado, ligou o rádio uol. Acordou com a intenção de ouvir Criolo. E começou a pensar: uma vela arde no centro de uma sala de uma casa-subsolo de outra casa num bairro periférico em relação ao centro de uma pequena cidade pertencente à região metropolitana de São Paulo. No dia anterior, ele terminou seu serviço da repartição. Foi ao carro, tirou gravata e paletó, sapatos sociais e vestiu sua bota de caminhada. Cumpriu o percurso de 3 minutos em 27 deles. Pos bermuda e camiseta, voltou pra pegar o carro de bike. Bike no carro, voltou comumente. Reparou, durante o caminho, em cada casinha, fundação, mato, ausência de calçada, barraco, entulho, planta, comércio e capelinha. E principalmente as pessoas. Ali não era o interior no qual cresceu e com o qual se acostumou. As pessoas não cumprimentam o desconhecido, ainda mais se o desconhecido vestia calça risca de giz, camisa social e bota de caminhada, a estranheza personificada. Reparou nas similaridades entre aquele caminho e o famoso, de Compostela. 
Criolo é um músico de rap, hip hop, de um monte de ritmos, que exalta a origem e não se deslumbra com o incenso sobre ele jogado pela grande mídia. A impressão que dá é a da plena consciência de tudo o que acontece. De tudo, principalmente o incenso que ignora o que lhe é realmente caro, as pessoas do bairro periférico em relação ao Centro de São Paulo chamado Grajaú. A mesma periferia, dado o centro comum.
Não existem paralelos entre o sujeito do post e Criolo, na exata medida em que não existe amor em SP.
(susto, começou a tocar exatamente no momento do ponto final do parágrafo anterior).
(É óbvio que existem paralelos e amor, mas se explicar, a piada perde a graça, já se disse).
Unem-se Criolo e Jung num post chuvoso.
Na mesma entrevista da qual se extraiu o texto acima, Jung conta o seu primeiro contato com seu "self". Ele estava no caminho para sua escola, com onze anos de idade, quando se sentiu saído de uma névoa. E então ele constatou: eu sou. Eu sou o que eu sou. E se perguntou: o que eu era antes? Antes, estava numa névoa. Antes, não se diferenciava das outras coisas, era apenas uma coisa dentre tantas outras coisas. Não existe amor em SP.
Uma das primeiras lembranças do sujeito do post é quando vinha de Socorro para São Paulo e da janelinha do lado esquerdo do ônibus, via aquelas casinhas todas, unidas, um mar de blocos e tijolos e telhas brasilit. Não sabia o que era brasilit, com cinco anos. Também não tinha consciência do seu self. Mas ia as outras crianças desconhecidas soltando pipa, via a vida ocorrendo e lhe dava um negócio bom. 
A vela arde no meio de uma sala que não deixa de ser o ônibus do qual ele vê a vida. E a janela da sala é janela mesmo, embora através dela ele só veja uma casa desalugada, nada mais; se quiser ver o tucano que vem coaxar no poste tem que ser mais cedo e de pé, na porta. 
Ele vive romântica e comodamente nessa casa. E seus tempos byronianos duraram o exato tempo de ter lido de verdade um texto de byron. O que ele quer é realidade. 
Criolo oferece a realidade que o sujeito entrevê da janela dos seus ônibus. Há um verso de grajauex: "No advogado é rolex". Ele é esse, embora com seu chilli beans, que é presença e baratinho, ele sente as músicas de Criolo com como um uppercut no queixo. É o incômodo que precede o movimento.
Decidiu ser este o fim do post. 

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