quarta-feira, janeiro 04, 2012

Acabo de ler uma bobagem sobre um suposto paralelo entre gerações de jovens a cada duas décadas. 
Ouço Lavoura. 
Sinto meus lábios apertados e curvados para baixo, o cenho franzido. 
Um cachorro late longe. 
Eu moro numa casa que fica abaixo de outra, num bairro periférico de um município da Grande São Paulo.
Uma sensação ruim me deu agora. 
Como se isso fosse deixar de ser provisório. 
Na parede acima da tela do note amontoam-se fotos da minha mulher, do meu pai, da minha afilhada. 
Mais acima,um post-it datado de 21.4.11 exclama Continua
Havia um mapa da Galícia, mas sumiu. 
Minha faxineira não quer trabalhar mais aqui, ou então é falta de jeito ao escrever quando pediu o desmedido aumento. 
Não lembro da cara dela, comunicamo-nos por bilhetes há meses. 
Ela tem uma tatuagem no dorso da mão e me desejou feliz ano-novo, hesitante, já depois de ter deixado, sabendo que eu não o sabia, o bilhete-despedida sobre minha mesa, numa aparente contradição com a "Obs: lista de compras sabão em pó amaciante paninho p/ pia desinfetante". 
Se fossem outras espécies de diálogos, eu interpretaria como a desvontade de deixar de trabalhar aqui em casa. 
Mas os outros diálogos foram (compreensivelmente) cortados, tal como Toríbio Terra Cambará faria-o com as linhas de telégrafo, não fosse (compreensivelmente) impedido pelo Cel. Barbalho, Comandante da Guarnição Federal de Santa Fé. 
O cachorro insiste em latir e essa angústia travestida de pônei maldito no meu estômago me insinua, provocativa, sussurrante e lânguida: e se isso se tornar teu permanente, teu definitivo, o que farás?
Sou capaz de em três breves textos romantizar tudo isso que me cerca a ponto de parecer atrativo. 
Manezinho, não lês essas linhas, mas se as lesse, te digo que gostaria de um dia conversar contigo uma conversa de alma. 
Eu teria de me embriagar e te perguntar por que cargas d'água vc me parece tão triste às vezes, mesmo quando faz piada? 
E te dizer em seguida, meu amigo, que ando seguindo igual. 
Faltam quinze minutos para uma hora da manhã e minhas promessas foram quase inteiramente descumpridas nesse dia, não fosse a heróica vitamina de frutas. 
Pai, nos protege nos próximos dias. 
Eu já recebi o sinal de que vc está atento e vigilante. 
Sinto que tudo estará bem, mas não vou comentar sobre o que fiquei inesperadamente sabendo essa noite, para não alarmar os outros. 
Ou talvez conte, apenas para ela. 
Meus lábios não estão mais apertados, mas ainda curvam-se para baixo. 
Até da promessa de manter os ternos passados vejo pelo tecido amarrotado aqui ao lado o seu descumprimento. 
Manezinho, triste ou não, vc e seus comparsas fazem umas músicas bem boas. 
Desdigo sempre tudo o que prego sobre o Agora, esse é o fato mais cabal. 
E descubro: sim. Identifico a angustieta-pônei-maldita como um pinçar de mim mesmo no espaço, como se dois dos descomunais dedos de Deus distanciasse, reduzindo-a, a imagem de uma universalizante tela touchscreen, dum google earth planetário qualquer e de repente eu pudesse ver lá de cima onde estou, em relação ao espaço por mim conhecido. Este pontículo periférico-metropolitano e Deus então sincronizaria um aplicativo que permitisse isolar esta noite quente e vagarosa do trigésimo sétimo janeiro e, adiante de mim eu nada visse senão esse abismo.

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