sexta-feira, abril 08, 2011

OUTONO - IV

Esse é um texto para mim mesmo. Será longo e enfadonho, advirto. Sei vagamente algumas coisas que ele conterá. Vamos a elas.
Ontem um rapaz entrou numa escola e matou, até agora, 11 adolescentes. Andam comparando com Columbine. O Sarney, consternado, culpou a venda de armas e questionou o plebiscito. Andam fazendo tiradas supostamente inteligentes de todos os aspectos. O Bono lamentou com a Dilma o ocorrido e certamente aludirá a isso no show amanhã (e será sincero).
Terça-feira eu disse na repartição em que trabalho que gostaria de entrar em outra repartição com uma metralhadora e sair atirando em todo mundo. Obviamente, foi uma maneira sarcástica de criticar o mau serviço da outra repartição.
Mas existem outros fatores não tão óbvios.
Li há pouco que a guerra é um modelo mental.
E de novo o estado egóico (que alguns já estão ficando fartos de me ouvir falar) coletivo vem à baila. Quando um carro me fecha, quando alguém toma meu lugar, quando a outra repartição não entrega o memorial descritivo no prazo, o modelo de guerra assoma.
Penso não correr o risco de sair por aí atirando a esmo. Nem as pessoas próximas a mim o farão.
Mas o modelo de guerra não aparece apenas pelos aborrecimentos.
A alardeada (e meio fora de moda, já, de tão carne-de-vaca) meritocracia utiliza-o como combustível.
Eu mato um leão por dia. Eu enfrento o meu dia, pra ganhar o pão com o suor do meu rosto. Eu lido (lidar me lembra agora a lide de carnelutti, a pretensão resistida, que, por sua vez, me lembra agora a guerra) com meus problemas diários. Eu sou cercado inconscientemente e a todo momento pelo modelo de guerra.
Que saudades eu tenho do lema do aikido, quando acordava cedinho e repetia sincero: "seguindo as leis do universo, a cada dia seremos mais e mais felizes".
Mas aikido é uma arte marcial! Marcial vem de marte, o deus da guerra!
Assiste a algum video de aikido no youtube. Vê como se usa a força de um suposto oponente (ele faz parte da mesma unidade que vc... é e,com movimentos harmônicos, conduz a energia advinda para outro local. Vc pode matar alguém, mas vc pode apenas reequilibrar a energia e dar a chance para esse alguém ter outra escolha.
(ok, dei uma encurtada no raciocínio).
Vi numa manchete hoje: 11 anjinhos e um demônio.
Taquem pedras à vontade (modelo de guerra), mas só consigo ver 12 pessoas. Dá raiva em mim também, compaixão com a família, dúvida nas razões, nos motivos, dá tudo isso. Mas o fato de ontem é o reflexo de algo muito maior que vem ocorrendo a cada dia, há milênios e, desgraçadamente, vem se acelerando demais nos últimos tempos.
Não, eu não consigo entender. Religiões, maçonaria, estudos e reflexões particulares me são insuficientes. Uma pessoa matou onze outras, indefesas, supostamente porque sofreu bullying.
Bullying é uma violência e somos violentos. Várias são as gradações. Adoramos, semanas atrás, o video do gordinho sofrendo bullying que ergueu o magrinho folgado e arremessou-o ao chão. Enaltecemos Davi que venceu Golias. Exaltamos os bandeirantes. Vivemos a violência, escolhendo o lado do bem ou do mal, desde a infância. Isso está arraigado, na verdade, há milênios, seja nas nossas células, seja no nosso espírito, seja passado de geração a geração, como queiram. Existem muitos modelos de crenças, em cada prateleira.
Admito que não podemos exigir das pessoas viventes há mil anos atrás o pensamento crítico atual. Nossa prosperidade e pujança foram adquiridos graças a incontáveis guerras, com povos inteiros chacinados e dizimados. Mas hoje deveríamos ser diferentes.
Voltando, eu gosto de estudar os templários. E sou um atirador. Tenho uma arma muito bacana.
Mas eu sou do bem, sou um anjinho e só vou usá-la, um dia, contra um ser humano, para me defender, defender minha família ou o meu país.
Modelo de guerra.
As tardes de outono viram milhões de acontecimentos e estão aí, outonizando tranquilas a nossa violência incontrolável. Eu rezo, por meio desse texto, para as almas das vítimas, do atirador, das famílias das vítimas e da familia do atirador.
Consigo compreender a sabedoria do colega de classe (um menino de 23 anos) do atirador, que se sentia culpado, pois pessoas inocentes pagaram com a vida pelas brincadeiras de mau gosto que meninos e meninas fizeram com o atirador, já com seus problemas internos. Mas menino, vc não é culpado.
O mais difícil de aceitar é tão simples: não há culpa (joguem mais pedras, estado de guerra). Não há culpa.
Há a tarde de outono.
E meus pensamentos positivos para todos.

4 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Como diz Mario Quintana:
Um bom poema é aquele que nos dá a impressão de que está lendo a gente ... e não a gente a ele!
Parabéns pelo seu texto.
Gosto muito do que você escreve...

2:09 PM  
Anonymous Anônimo said...

Nossa, tu disse tudo que eu penso..tbém só vi vitimas.
Tu és irritante as vezes, mas escreve maravilhosamente..
Viva o sicialismo!!!

2:33 PM  
Blogger Madureira said...

Pessoas anônimas: deem alguma dica de quem são!!! tipo a anônima da boina, fica fácil, pois não existem socialistas mais. O socialismo perdeu, daí eu sei que é ela :P
BRINCADEIRA!!!
Obrigado, primeiro anônimo, viva o mario quintana.

3:56 PM  
Anonymous Anônimo said...

O anonimato não é legal mas no momento é preciso.
Você me conhece pouco...é uma pena.
O que sinto por você guardo só para mim...
Pequenos momentos ao seu lado, uma gostosa lembrança.
Boa Noite...

10:13 PM  

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