sexta-feira, junho 01, 2012

Uma rádio uruguaia tocando suas músicas em mirandópolis, enquanto um esquimó corta prováveis peixes, Tatá não brincou quando falou da pescaria, nem tudo é parábola, nem tudo o que te digo é, linda, alegoria. Os mulheres negras subindo ao palco com seus chapeuzinhos afloraram de algum canto de meu cerebelo a dormida lembrança de meu pai dizendo que eles eram muito muito bons. Não me lembro de sua réplica quando respondi que o repertório dos mulheres não fazia parte dos seus boleros e sambas-canção, mas posso suspeitar algo que tenha me calado, feliz, como costumava fazer até os últimos dias, com seu sorriso irônico, revelando que seu pensamento era cósmico e que eu não tentasse entender. Lembro-me muito bem das suas mãos e dos seus dedos, até porque, a cada dia que passa, minhas mãos e meus dedos vão se tornando cada vez mais parecidos com os dele. Minhas mãos e dedos gostam de tocar de levinho e sentir a textura de tudo, de agarrar com força coisas como a bisteca do sujinho, tenho que cumprir o ritual e comentar com o garçom que a bisteca é bonita de ver assim, saindo do prato; gostam de digitar e assinar meu nome, meu nome, em nome de que ou de quem eu sigo e faço tantas coisas corriqueiras, mas tantas que me perco? Queria ser o esquimó, queria que a moça lá me dissesse quanto vale a arroba do cabrito, mas me explicaram que cabritos não são os exatos desideratos mirados pelos investimentos da moça lá. nem sob o irrefutável argumento de que são commodities. Quero nessa tarde a saída, pelo lado esquerdo do trem, pelas colinas, pelas montanhas, metrô Sé e a área em que criarei cabritos e arrendarei para Manezim plantar suas frutas e delas fazer geleia. Abasteceremos os grandes centros consumidores com nossos queijos de cabras, geleias de frutas, nossos pensamentos traduzidos em palavras e sons virão de brinde. Eu te escolho, moça, pra vir morar na minha casa simples rural, contanto que teças a cortina com galinhas prometidas e as colchas de retalhos, deve haver um nome técnico pra elas, não nos amarra dinheiro, moça, mas todo o resto. Escreverei mensagens que, engarrafadas, seguirão o curso do riacho e pararão no sítio do vizinho, que as guardará em silêncio ou nos retornará em estilhaços de garrafas na porteira. Mas pra mim, como sempre e nos demais casos, pra ti também é assim que eu sei, as mensagens chegarão à Dinamarca ou à Oceania. Os Mulheres Negras se uniram ao mojito e ao jack daniels pra me fazerem olhar em volta, respirar fundo e ver o tatá tirando fotos, o bronza sambar com os amigos, enquanto eu me lembrei dela e de tudo o que poderia ter sido, pela primeira vez sem dor, com reconhecimento e gratidão, com amor, sim, redimensionado para o amor que se sente por um ser humano maravilhoso, linda, com seu sorriso que nos abarca a tudo e a todos, com seus polegares que, dobrados pra trás, me fizeram ter a certeza de que me casaria com ela. Acho que preciso dos Mulheres, do mojito e do jack daniels, ou preciso das fotos do tatá e da sambadinha do bronza, um dia não precisarei de nada, pra sempre pensar nela apenas daquele jeito, com gratidão e amor de ser humano. Não sei se lês isso, mas quero de uma maneira muito forte que sejas extremamente feliz, como é a felicidade que espalhas pelo mundo. Eu respirava fundo e fundia passado e futuro naquele momento e num átimo o salão esvaziou, no máximo a base permanecia saindo do netbook do abujamra e constatei, como um esquimó constata a maneira correta de se cortar o peixe, que diria tudo o que sentisse com a faca emprestada do esquimó, pra cortar o cordão umbilical. Ainda não deu, que venha o próximo.

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