domingo, novembro 14, 2010

Então é assim, pai: a cada post que escrevo pra vc, duas ou três pessoas me contam que choraram. Então tentarei rechear este com piadas, pras pessoas rirem, o que acha? Exemplo: eu que sempre cito o filósofo Axl Rose, resumiria o que quero dizer com "november rains". E se não existe o ésse final, é um pouco de culpa tua, que não me pos no inglês na idade certa, por dizer que eu nunca concluía curso algum. Só porque não terminei a natação, o basquete, o karatê, a computação, a capoeira, o aikidô, a taquigrafia (também, né, pai, vc forçou a barra. Taquigrafia!), a leitura dinâmica, entre vários outros. Coisa pouca, o inglês eu acho que terminaria. E, como não terminei, eu digo que november rains, com ésse mesmo, pq november é foda. Tem esse feriado pro qual nunca ligamos, no dia 02, mas que sinto rumores perguntativos de se eu não vou a Socorro por flores no túmulo e tal. Por esse passo incólume, mas daí chega o dia 16. Complica pro meu lado, pai. Todos os assuntos aqui em casa convergem pra vc e isso é ótimo. É muito bom falar e pensar em vc e sentir essa saudade gostosa, vc sabe disso. Traz vc pra perto, de um jeito sadio, tanto pra nós quanto pra vc. Mas ainda não dá pra não ficar triste. E, segundo meu irmão gaúcho, posso esquecer, pq não melhora com o tempo. Então, que se conviva, né? Mas talvez não dê pra impedir que as pessoas choremos um pouco. E eu queria vc aqui, pra falarmos do Panamericano, fazermos nossa análise sociológica da Geisy Arruda, pra vc ir no Big comigo e com a mamãe e lá encontrarmos o Romanato e o Helinho. Eles me convidaram pra ir ao seu Clube dos 21. O Nelson já tinha me convidado também. Mas eu tenho medo de ir. E isso renderia umas duas ou três sessões com a Maria Inês, mas não vem ao caso agora. Provavelmente estaríamos ainda pagando as compras no caixa (e hoje já voltamos há mais de hora), pq vc ficaria uns 40 minutos conversando com o Romanato, 30 dos quais estaria com o Helinho junto, depois mais meia hora conversando com o Evanilso, que também comprava lá. Não se convenceria tão rápido com a dica que o Bronza deu, sobre o vinho do Porto, faria eu ler todos os rótulos de letras miúdas, todos os detalhes, no final compraria o que o Bronza indicou, mas também compraria o outro, que vc elegeria o melhor, sabe-se lá por que motivo e agora estaríamos conversando e tomando vinho do porto (e eu não consigo segurar as lágrimas, pai, eu quero vc aqui e sinto a mesma saudade, a mesma) e, no fim, vc diria que o vinho do Bronza é muito bom, mas que, pro seu paladar, vc não saberia dizer a razão, mas (e estalaria os lábios. Eu grafaria o estalo com reticências...). Vc defenderia a Geisy Arruda da hipocrisia da sociedade, desfiaria 7 ou 8 aspectos dessa hipocrisia, citaria um sociólogo, dois filósofos e um poeta e eu te amaria ainda mais, ou talvez tanto quanto, se vc só estalasse os lábios com teu vinho preferido.
Eu vou tatuar aquele símbolo e vc me criticaria veladamente por isso, ainda que fosse o símbolo com o qual vc identificava os seus livros. Mas me amaria do mesmo jeito, vc sempre me amou com todos os meus erros. Sempre foi contido nos elogios, pra que eu evoluísse cada vez mais, mas eu sempre soube ler nas entrelinhas e, quando vc elogiava abertamente, era a pororoca, a avalanche, o tsunami juntos e eu não sabia o que fazer com aquilo tudo.
Sabe, pai, já me perguntaram porque eu faço isso, escrevo essas coisas aqui no blog. Deve haver vários motivos, mas o meu preferido e o único dos quais sou consciente é que eu só consigo chorar assim. E sinto alívio, sabe? Me desanuvia. Então, quem quiser chorar, que chore também, já que a música é november rain, sem o tal ésse. E vou lá eu saber se o verbo chover em inglês é variável, ou é como no português. Eu não teria feito Letras, afinal.
Estava pensando, pai, como vc marcou as vidas das pessoas.
Até hoje mulheres divorciadas param a mamãe na rua e dizem que vc ajudou-as demais, nos momentos mais difíceis da vida delas. Vc sempre dizia que a mulher traz (não lembro os motivos filosófico-sociológico-psicológicos que vc usava, nem as respectivas citações) toda a culpa pelo fim do casamento, pelo fim do sonho. Por mais que os homens sacaneassem, as mulheres divorciandas vinham culpadas diante de vc. E vc, juiz de Família, ficava duas horas conversando com elas (coisa que os juízes de hoje fazem em 30 segundos) e mostravam que elas não tinham culpa não, que a vida era assim mesmo (caramba, hoje tá complicado, to chorando até com isso), que não seria o fim do mundo pros filhos, pior pra eles eram as brigas. E elas saíam dali aliviadas e prontas pro recomeço. Pai, eu te amo. Vou falar sempre isso aqui e vou sentir sempre por não ter falado em vida. Aí tenho que repetir meu apelo de todo post, pra que as pessoas que tem pais vivos o façam, falem muito que os ama, porque dizer depois não é a mesma coisa.
Tio Liço, o tio preferido, me falou de novo que quer ir comigo de jipe pra Itápolis. Vc o marcou muito também, sabe disso. E ele continua me reproduzindo os causos de futebol que vc contava na infância dele. E vc ia em todos os jogos, do São Paulo, da Ponte Preta, da Associação Socorrense, do que fosse.
Amanhã é seu aniversário. Faria 73 anos. Eu te deixo um parabéns com um beijo no rosto. Ganhei a aposta, nunca senti vergonha de te beijar no rosto em público, mesmo adulto. Eu te amo,

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Braba, sua melhor amiga, não cansa de dizer. Espetacular.

9:23 PM  

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