sexta-feira, junho 04, 2010

Cachorro em dia de.

Eu não gosto de mudar. Quem leu isso, leu o post todo já, pode passar pros sites do tempo e temperatura. Mas eu explico mais.
Aprofundados estudos etnossociológicos que acabo de inventar apontam para minha origem caipira, de matuto, esse enfasti0 que a mudança traz. O sujeito gosta (gostamos) de ficar lá (aqui), pitando seu cigarrinho de palha (jogando mafia wars), vigiando o sol que se põe (prejudicado pelos prédios ao redor). Receio que não.
A primeira mudança me tirou dos meus amigos, da minha namorada - já escrevi outras vezes, pedi sua mão em namoro, depois de dar o selinho debaixo da árvore da frente do Café Caiapó, como nas novelas. Pedido imediatamente aceito pelos seus pais que, com cara de uooonn, gostavam da cara de anjo de todo mundo dizia que eu tinha. Essa primeira mudança me tirou do convívio diário dos meus avós paternos e das idas ao sítio com meu avô materno, o seo lice de outros posts. Tirou-me, enfim, da perfeita adaptação de um ser em formação ao meio. Um segundo útero, pra dramatizar um pouco só. Tirou-me de Help City, aos cinco anos e deu-me a conhecer a minha Atibaia querida, dos seus filhos jamais esquecida, majestosa linda e altaneira, és também paulista e brasileira.
Assim, eu deixei de ser o caboclo bom de bola e pingueiro, dono de um comércio e de um ranchinho, pai de três filhos pré-adolescentes, que certamente seria hoje, pra, na verdade ser esse cara aqui que vcs estão lendo.
E assim foi, de Socorro pra Atibaia; em Atibaia: da estância pra joão pires, da joão pires pro 313, do 313 pra Henrique Bonini. De Atibaia pra São Paulo: da Henrique Bonini pra Aureliano Coutinho, voltando depois pra Henrique Bonini. Da Henrique pra Consolação, da Consolação pras Rosas, que não falam, simplesmente as rosas exalam, o perfume que roubam de ti, aaah, me empolguei. Das Rosas, hoje, último dia, pra - ironia das ironias - Casemiro, o nome que escolhi pro meu Id.
Que nego dramalhão, dirão alguns. Mudaram-se muitas vezes mais, pra outro país talvez.
Mas vcs não tiveram seu segundo útero, dito lá em cima, e que minha analista vai adorar, seus cagados (cagado, aqui, é carinhoso e veio num impulso, tem que ser escrito). Talvez esse lance de segundo útero é quem determina toda a nostalgia que envolve, esses filmetes todos que sintetizam os melhores momentos e tal, esse ficar olhando pro teto, pra vista, pro assoalho, passando a mão nas paredes do corredor enquanto vou à cozinha beber água. Não é ruim não. Nem triste.
Mas o caipira gosta de pitar sua palhinha vigiando o sol se por, fazer o quê, eu não gosto de mudar.
A casa nova tá bem bacana, receberei lá os mais chegados, momentos virão, assim como as reconquistas, as retomadas. A felicidade estará lá, não aqui. Aqui vai ser passado.
E mesmo o fato de eu continuar a ser dono do apartamento das Rosas, que será ocupado por minha irmã e visitado constantemente por mãe e irmão e, em última análise, o fato de eu continuar a brigar com o grupelho nas assembléias gerais ordinárias condominiais, não afasta - hoje, meu último dia - dessa languidãozinha morna.
O engraçado é o autoconhecimento me sussurrar essa frase de 47 sentidos, com a qual me despeço: amanhã passou.

1 Comments:

Blogger Allan Robert P. J. said...

Mudar é bom. Eu mudei tanto que já nem me incomodo com as caras fechadas dos azedos por novidades quando chego. Mas para mudar é preciso levar consigo um pouco de cada lugar. Um abatjour, uma caneca velha, as almofadas. E a essência desse ser em constante mutação, como o hábito de vigiar o sol poente. Portanto, mudar compreende deixar um pedaço de você em cada lugar e assimilar um pedaço de cada lugar em você.

11:13 AM  

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