segunda-feira, janeiro 25, 2010

Montevidéu, pra mim, é assim:

1. Pessoas simpáticas (até a polícia federal de lá!); calorzinho bom; tres cruces; hotelzinho mediano; café da manhã muito bom; bandeira do uruguai, imensa; bosque perto; casas antigas; estádio centenário; centro charmoso (ciudad vieja); ramblas magníficas; livraria estilosa; cafés nas peatonales; zillertal, a prévia; a melhor carne que já comi (la casa violeta, rib chop steak, diz ser corte exclusivo, sei lá eu, um osso acintoso furando a carne. Se não fosse tão imenso, seguraria no muque e destrincharia no dente. Amarelei); canelones; maldonado, onde tem el cerro de santo antonio, punta ballena (no item 2) e punta del este: charmosona, casarões, barcões, carrões e brotola, peixe metido a diferente, bem gostoso, a primeira patricia (finalmente); tarde em pocitos; identificação e apropriação de meu lugar no uruguai: a sombra da palmeira do início de pocitos, na rambla mahatma gandhi, altura da Fco. Solano Antuña. Outras coisas que vou esquecendo, o oposto do que vem agora, no item

2. Deus é bom comigo. Mesmo eu não correspondendo tanto, Ele me proporciona ao menos um momento como esse, em cada viagem. É certo que, pra se sentir um momento assim, o viajante tem que ter uma certa postura, que é uma delícia de se tentar. Algo mais ou menos como:
a) esquecer você e de onde você vem: não querer que tal avenida pareça com a 23, que a pracinha bucólica lembre atibaia de 85, muito menos que a cidade seja um misto de guarujá com campos com buenos aires. Não. Vc tem que entrar no lugar e enxergá-lo como ele é. Esse é o pressuposto. As comparações, se vierem, virão depois, quando forem menos ofensivas;
b) usar os sentidos: sentir cheiro, ouvir o som das consoantes, das músicas, olhar os pontos de exclamação invertidos e a textura do muro onde eles estão pichados, a não-tão beleza das moças locais, a simpatia delas, sentir o amargor do mate, a jugosidad da carne e por aí vai.
- Pô, eu vou esquecer. Eu quero é só caminhar, sem lembrar de regras!
É, mas isso aqui é direito verdadeiro, a norma é criada só depois do fato social e da valoração, pra sermos tridimensionalistas, um tantinho. Só são positivadas ao escrever o post, ao voltar pra casa. O lance é deixar fluir, bobão.
E é assim que eu estava (caramba, vc ainda tá lendo isso!), no ônibus de excursão, com o guia malandrão explicando uma das próximas paradas: o museu em homenagem a um artista plástico modernista que curtia os ismos que aprendemos no colegial - cubismo, dadaísmo..., que cedo mudou pra buenos aires, pra pintar o som dos negros do povo dos arredores, e sua cultura, que o levou a viver no brasil, senegal, liberia, haiti e, ainda depois, nova iorque, frança e ásia, onde passou a ficar amigo de pessoas como gardel, vinicius, toquinho, jorge amado, che guevara, fidel, brigitte bardot, andy warhol, dalí, picasso. O cara de vida pouco intensa, que teve um de seus filhos sobrevivente no desastre do avião dos andes, na década de 70 e brilhou em cannes. Um cara que se contrariou muitíssimo com as linhas retas da arquitetura e construiu, com suas mãos, autodidata, o lugar que conheceríamos dali a instantes, a chamada casapueblo, que foi cantada por seu amigo vinicius e impregna nosso inconsciente infantil: 'era uma casa, muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada...'.
Bom, eu me senti um pouco desconfortável por, até então, nunca ter ouvido falar no Carlos Paez Villaró. Nem fiquei tão triste, dado o tamanho da minha ignorância, pois seria mais um dos inúmeros caras de quem queria saber tudo e não sei nem da existência. Enfim, conheceria a tal casa muito engraçada.
Cheguei lá e tive o meu momento de Deus. Aquele em que Deus fala: meu, melhora, mas pelo tanto de bom que vc vem sendo, tá aqui pra vc, vai. Assim foi nos canyons da chapada, nas praias de noronha, no 'la cumparsita' de buenos aires, em perito moreno de el calafate. Assim foi na Casapueblo, de Carlos Paez Villaró. Que coisa boa de sentir, esse arrebatamento, meio orgástico, meio retumbante, meio malemolente, tudo junto. Eu não vou tentar descrever aquele monte de curvas brancas, com suas gravuras pintadas em azuis, aquela sinuosidade toda que (dizem ser chavão) te remete claramente a gaudí. Eu não, não vou descrever, não. Vou torcer pra que vc que lê isso um dia vá lá, de olhos e mente abertos, pra sentir tudo isso também. A voz não saía. Eu não queria que saísse. Minha mulher ficou sem respostas pra algumas perguntas e entendeu que acontecia de novo, o arrebatamento. Ela se diverte, fica do meu lado olhando pra mim e eu lá, arrebatado. E sobe e desce escada, e faz a curva e senta e a máquina de foto ia funcionando sem olhar pra telinha, seria afrontoso olhar pra ela e não pro ao vivo dalí. E descubro que era também hotel e, É ÓBVIO, eu vou voltar logo pra punta ballena e vou me hospedar nesse hotel, custe o quanto custar, essa eu pago. E descubro que se vendiam gravuras (comprei três) e livros (dois).
E, aí aconteceu.
Quando eu vejo uma obra de arte, qualquer uma, eu tento imaginar o artista arteando, é um jeito meu. Penso na vida do cara (a historinha do guia e o filminho de 5 minutos foram pródigos, vcs viram), no que o cara sentia naquele momento. E, assim, passado o arrebatamento, meu pensamento era só em quem teria sido esse Carlos Paez, sua vida de multidões, de gente que mudou o mundo, de lugares do mundo onde o mundo foi mudado.
E comprei um livrinho.
Comprei o livrinho depois do livro e das gravuras. Achei caro. 45 dólares, os caras exploram o arrebatamento da gente, pensei. Mas blz, àquela altura eu tava rasgando dinheiro de alegria, quanto mais vindo um livrinho de troco. E desci pra outro andar e me deparo com outra loja.
Nessa loja, vendiam o mesmo livrinho. Por 15 dólares.
Ah, meu. Eu sou amigo do Alexandre Bronzatto. Ele quando tentam passar pra trás, pede nota fiscal pra copinho de água mineral. E guarda mágoa pro resto da vida, como no episódio dos ingressos do Atlanta, com outro amigo meu.
Fiquei puto. Voltei à loja do andar de cima e perguntei como ela me cobrou 45 dólares se na lojinha de baixo era un tercio de lo precio (achei bacaninha essa expressão, depois). A moça, constrangida um pouco demais, percebi na hora, foi consultar na lista e me pediu mil desculpas. E, do meu lado, um velhinho me olhava e me ouvia falar. Quando olho pro cara, ele riu da minha reação. Era o Carlos Paez Villaró. Ele tava ali, aliás, ele mora ali. Só depois que fiquei sabendo, assim como fiquei sabendo que ele estava vivo. Enquanto eu olhava os quadros, na casa, pensava que tinha de perguntar quando ele nasceu e morreu, não tinha ficado claro pra mim.
E ele estava ali, rindo da minha reação, das minhas palavras balbuciadas, já em portunhol, de que o livro, depois do autógrafo, valeria muito mais que os 45 dólares. Em seguida, uma chusma de pessoas querendo tirar fotos e o guia me forçando a voltar pro ônibus me impediram de perguntar tudo pro cara. Ou, muito provavelmente, eu não teria perguntado nada pois estava, de novo, arrebatado. Só pedi pro chato do guia tirar essa aqui e, fui continuar o passeio, no sol quente de punta ballena, seguindo pra punta, puntiña.

4 Comments:

Blogger Carol said...

Que superrrrrr!!!!!! Eu tb já tava pensando que o cara era falecido...

E... finalmente a patríciaaaa!!!!!!

Beijos, cabeçote.

10:47 PM  
Blogger Madureira said...

Oba, consegui o meu intento.
*
A Patrícia é a única que a Miss M tolera.

6:35 PM  
Blogger be said...

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