domingo, dezembro 02, 2007

Existem muitas formas de prisão. Estou preso numa invisível, que permite muitos momentos de felicidade, talvez uma vida inteira, sem enfrentamento. Quando apertar enter, vou fazer as compras necessárias para a casa, almoçar e passear. No passeio, comprarei algumas coisas desnecessárias, para mim e para pessoas de que gosto. Provavelmente assistirei a um filme, comerei algo, voltarei para casa e assistirei à TV.
Pão e circo.
A partir de amanhã cedinho, mergulharei nos andamentos de feitos, providências processuais e correção de provas, para garantir meus salários fixos e outros caraminguazinhos vitais.
Todo o meu afeto será direcionado às pessoas amigas e minha família. E aqui começo a chegar no ponto.
Tive sorte de nascer, crescer e me desenvolver física, psicológica e intelectualmente de uma maneira confortável, graças a uma família estruturada e acesso a instituições basilares. Eu e os meus iguais, ínfima porcentagem da população nacional.
A lógica que me foi incrustrada - e nisso não me desassocio do resto dos animais - é preservar e manter essa situação de conforto e transferi-la para a minha geração seguinte. A diferença é tenho interesses que vão além da sobrevivência. A essência é idêntica.
Isso à custa de 90% da população nacional.
Radical eu seria se tudo se desse de maneira direta, conforme resumido até aqui. Mas a prisão é invisível. Ela não consiste numa vida confortável e harmoniosa. Mas na aceitação das condições para a sua manutenção: a exclusão da maioria, por meio da nossa omissão e passividade, de que já falei no post abaixo. Essa manutenção impede que meu afeto recaia sobre todas as pessoas, pois se eu realmente sentisse afeto por elas, eu não poderia concordar com a sua exclusão.
Tem quem faça o serviço sujo. Pessoas um pouco piores, mas que não retiram com isso a nossa contribuição, pessoas que ocupam as funções públicas e desviam a finalidade dos atos para os quais foram investidos, eleitos, nomeados, contratados, do público para si próprios.
Não posso me indignar tanto com eles, no íntimo. Afinal, eles me são úteis, na medida em que impedem a maioria de pensar, reunir-se e conseguir alterar a sua situação, esta sim, da estrita manutenção da sobrevivência e assim colocar em risco os tênues e imperceptíveis privilégios de que disponho.
***
Havia duas pequenas cidades. Uma governada por pessoas de pouca inteligência que, conscientemente, impediam o acesso de recursos externos para o seu crescimento, pois imaginavam que assim perderiam o seu poder, tão custosamente adquirido. A segunda, originada aliás dessa primeira, governavam pessoas que vislumbraram a associação com esses recursos externos, como um modo de ampliar o seu poder, tão custosamente adquirido. Mas o ponto não é esse. Os governantes da segunda estão na segunda geração ocupando seus lugares de deputados estaduais e até federal. Os da primeira digladiam-se até hoje pelo seu pequeno poder. Mas o ponto ainda não é esse. Quero contar que a segunda cidadezinha cresceu de maneira ordenada, recebeu indústrias, serviços, serviços públicos estaduais e federais. Hoje é pujante e seu povo vive melhor, apesar de tão perto da primeira, em que crescem favelas, há falta de recursos financeiros, empregos e opções das mais variadas.
***
Não sou socialista porque a ruptura com as instituições atuais, sem o rompimento com a mentalidade íntima que nos governa a cada um favorece o surgimento de castas que se agrupam em torno da nova organização do poder. A desigualdade e, mesmo, miserabilidade, mantêm-se, senão aumentam. Isso tudo foi provado em 1989.
O que seria possível e bem mais viável é a manutenção dessas nossas instituições e a consecução dos objetivos que figuram na atual folha de papel, a que se referiu Lassale. Uma evolução muito sólida e rápida - porque o tempo urge- embasada na educação e alfabetização para a crítica. Para que se transforme a folha de papel numa verdadeira constituição, de um país desigual para um país pujante, como a cidadezinha, como o lugar onde eu possa fazer compras e agradar as pessoas de que gosto de maneira legítima, sem atingir, por omissão, os meus verdadeiramente iguais, quase duzentos milhões de pessoas.
***
Só que não sejamos ingênuos. Todos querem alcançar e manter-se no poder. Não existe bem comum. Não existe, ainda. Desculpaí, Maquiavel, mas bendito de quem te mandou pro ostracismo, permitiu vc ter vontade de contar pra todo mundo como é que a coisa funciona. Desde muito, muito antes de vc, até dezembro de 2007.
***
(continua).

12 Comments:

Blogger Virgínia said...

O que aconteceu em 89?

4:53 PM  
Blogger madureira said...

boba rsrs

5:32 PM  
Blogger Carol said...

fui te linkar no meu blog e baguncei tudo lá... tu sabe como me ajudar a desfazer?? (quem faz essas coisas relativas ao blog pra mim é a Vica, mas ela não tá online)

6:01 PM  
Blogger Carol said...

Num carece mais naum!! Já "rrumei"

7:07 PM  
Blogger Dani said...

Tu, a Vica e os textos sobre política...
Olha, o povo brasileiro é acomodado por natureza e, além disso, nos últimos tempos, enfrenta crise de valores e de liderança. Parece que os líderes estão do lado errado...
Mas, não dá pra querer carregar o mundo nas costas. Cada um tem que fazer um pouco e tu é um daqueles que não pode se culpar por não fazer sua parte. Eu não posso dizer o mesmo.
Legal essa tua preocupação social!
:)

10:22 AM  
Blogger madureira said...

vixi, carol, vi tarde demais. que bom que deu certo lá ;)
*
dani m., eu protelo e, enquanto isso, me omito. é difícil mudar isso, são muito poucos os caminhos pra gente de bem. a gente tem que fazer trabalho de formiguinha, mas o que faço é muito muito pouco.
um dia a gente muda.
*
e aí, vica, descobriu o que aconteceu em 89? :P

10:33 AM  
Blogger Virgínia said...

No mundo ou no Brasil? Conta!

10:51 AM  
Blogger madureira said...

No mundo, vc sabe!! Como diz o siddartha, está se fazendo de salame.
(ele só cunhou a expressão, não falou que vc se faz)

11:13 AM  
Blogger Virgínia said...

O que aconteceu afinal? Eu era muito pequena (hahaha). Vai assistir o Waking Life do Linklatter.

10:30 PM  
Blogger madureira said...

dio santo: vou responder, mesmo achando que vc tá me tirando. Só caiu o muro de Berlim, Perestroika, todo o leste europeu ruindo, ceausesco e suas torneiras de ouro, etc etc etc.
*
mas vc tá me tirando, vc sabia. humpf. :D

10:46 PM  
Blogger madureira said...

e vem pro msn!

10:46 PM  
Blogger be said...

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1:03 PM  

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